2G N.28
Aires Mateus
João Belo Rodeia, Alberto Campo Baeza (textos)



AGOTADO / OUT OF PRINT

Conteúdo:

João Belo Rodeia
Sobre um percurso

Residência de estudantes do Polo II da Universidade de Coimbra
Reitoria da Universidade Nova de Lisboa
Livraria Almedina I, Lisboa
Livraria Almedina III, Porto

Alberto Campo Baeza
Un punhado de ar

Casa em Alenquer
Casa em Alvalade
Casa no litoral alentejano
Casa em Brejos de Azeitão, Setúbal
Casa na Serra de Mira d'Aire, Porto de Mós
Casa em Sesimbra
Casa no Parque Natural de Arrábida, Setúbal
Casa em Alcácer do Sal
Orquestra Metropolitana de Lisboa
Centro Cultural de Sines
Museu de Arquitectura de Lisboa
Museu do Farol de Santa Marta, Cascais
Grande Museu Egípcio, Cairo
Hotel Park Hyatt, Dublín

Biografia

nexus
Conversa informal entre Francisco e Manuel Aires Mateus e Gonçalo Byrne e Valentino Capelo de Sousa

30 x 23 cm
144 pp páginas ilustradas en color
texto: english/español/português

Publicación trimestral
ISSN: 1136-9647

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precio: 24.04 €

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Um punhado de ar
Alberto Campo Baeza

"Para fazer uma casa, agarra-se num punhado de ar e segura-se com umas paredes." Parece que os irmãos Aires Mateus plasmaram literalmente as palavras deste provérbio nazarita, visto que, segurar o ar com as paredes, é precisamente o que fizeram nesta casa, belíssima, erigida fora do tempo e dentro do espaço da beleza.

Ruína sublimada. As caixas vazias
Os arquitectos referem na sua simples memória que apenas "consolidaram e repararam os antigos muros da velha casa". Eu penso que fizeram muito mais: tornaram-nos sublimes.
A caixa dupla envolvente era inicialmente uma ruína silenciosa. E deram-lhe voz. Criaram valor manipulando-a, abrindo-a e fechando-a e unificando-a com uma radiante cor branca.
E colocaram um chão de madeira, que como uma bandeja, leva a que as peças se revistam de uma maior presença. E no fim encheu-se de luz. Assim tem tudo um certo ar metafísico que nos faz lembrar algumas imagens de De Chirico. Com uma força impressionante.
Quando uma ruína conserva os seus muros com uma materialidade tal capaz de prender o ar e a luz, quando ainda nela a gravidade constrói o espaço, a arquitectura revela-se, despojada de tudo, na sua forma mais radical. A pura nudez da estrutura costuma ter a poderosa força da arquitectura mais essencial. Assim o fazem alguns muros de muitas ruínas romanas que nos comovem. Assim o fazem os muros das caixas vazias desta casa.

O céu emoldurado. A casa da água.
É provável que a qualidade mais destacada destes espaços seja a verticalidade, que se acentuou como atributo dessas duas caixas que outrora suportaram mais de um andar, e que agora estão livres em toda a sua altura. A proporção não usada, nunca pensada pelo construtor original desses muros, provoca um certo fascínio. A alta caixa da piscina, como um guarda-jóias da água ali retida, produz, quer por reflexo sobre a água quer pela sua transparência, um efeito de máxima verticalidade.
A proporção é ainda hoje, e sempre será, um instrumento eficaz para trabalhar em arquitectura. Embora se possa pensar que neste terramoto passageiro com que se agitam as actualmente denominadas arquitecturas de vanguarda, este atributo, a proporção, pudesse parecer inexistente. A proporção que é domínio da escala.
Queria observar aqui como a caixa vazia da piscina parece mais alta do que a outra onde a desproporção dos espaços intersticiais poderia levar a pensar que nestes houvesse mais verticalidade. Por outro lado, sentados dentro da caixa da água, o olhar é conduzido para cima, na direcção do céu emoldurado, trazendo a recordação do Panteão de Roma. Emoldurando o ar do céu.

A máquina fotográfica
Se analisarmos a casa de funções albergada na segunda caixa, temos de reconhecer que é um perfeito mecanismo de relojoaria, que funciona na perfeição. Mas se examinarmos a precisão com que cada peça foca a paisagem através de filtros duplos de janelas e espaços ocos, seria mais conveniente o símile da máquina fotográfica. E se dizíamos que a caixa da água se dirige para o céu, esta caixa da casa está virada para a terra.
As funções foram definidas de uma forma soberba. Na parte inferior o espaço público, para estar, cozinhar, comer, com uma visão da paisagem mais focada que emoldurada. Na parte superior a máxima privacidade nos quartos de pequenas dimensões, cada um com uma vista diferente. Como uma máquina fotográfica.

E a luz
No fundo, toda a casa não é mais do que um brilhante exercício de luz. A luz branca recortada na sombra projectada dança sobre a superfície da água escavada é uma cena que merece ser contemplada. A luz sólida desloca-se ao longo do dia sobre um fundo de luz reflectida que enche o ar que dá volume a estas caixas sublimes, e que produz efeitos da máxima beleza.